quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um lugar encantado...

Desconhecido






Três dias. Já se tinham passado três dias. Tu, a tua irmã com o marido e o filho de férias na praia... Que inveja! Que saudades do mâr...
O telemóvel não diminui a distância. A tua vôz à espera de algo...


- Vem cá ter...

- Não posso. Tu sabes disso. Saio de serviço só logo à noite e amanhã entro logo às 8 da manhã. E tu estás a 200 quilómetros...

- Se tivesses mesmo saudades minhas, tu vinhas...

- Claro. Já não durmo quase nada à duas noites e com esta era para eu ficar de rastos. Tu não deves é gostar nada de mim...


Ela sabe que quanto mais me provocam para fazer algo menos vontade tenho de o fazer. Detesto testes.
A tarde toda a pensar no passado. Nas coisas que fiz, nos momentos que passei. Em como fiquei preso por um sentimento a quem não o merece. Em como tudo se vai diluíndo. Como uma mancha que se vai desfazendo enquanto a chuva cai...
Volto a sentir. Ela faz-me sorrir. Faz-me querer. É bom sentir isso.

9 da noite.O restaurante do costume. Simples e caseiro. Ela liga. Discutimos. É difícil largar alguém que me ama assim tanto. Ao ponto de me dizêr coisas más.
Janto irritado.
A paciência do dôno para comigo. Ele já me conhece... Acabo de jantar com um café e um "Uma boa noite. Tudo se há-de compôr".

São 10 da noite. Paro na estação de serviço para cigarros e uma extravagância: combustível...
Tiro um cigarro. Chegar a casa e descansar que há duas noites que só durmo 3 horas. Ainda estou irritado com a discussão. Com esta cidade. Com esta claustrofobia.
Acelero. Música bem alto. A estrada à noite enquanto vou devorando quilómetros e passando carros sucessivamente. Espero que não haja nenhum radar à noite...

São quase onze da noite. Está na hora.


- Então, encontramo-nos onde ?

- Onde estás ?

- Quase a chegar aí. Vim pelo outro lado para vêr o mâr enquanto desço a estrada.

- Vem ter à marina. Quinze minutos. Não sei se eles quererão ir também.

- Está bem. Fico à tua espera...


Foi estranho. Não me pareceu muito surpreendida.
Sento-me num banco, frente aos barcos. Veleiros. Adoro veleiros e tudo o que representam...

Chegas perto de mim. Um olhar diferente. Não é mesmo de surpresa. Mas é um olhar bom.
Passeamos pela cidade. Cheia de turistas. Café, conversa. Beijos, abraços, mimos. Mais conversa.
Por vêzes lembro-me dela. Mas depressa me passa. Tu estás aqui e eu estou aqui. Fazes-me bem.
Regressamos.


- Amôr, agora vais para casa para vêr se dormes um bocado. Já estou com um pêso na consciência...

- Não digas asneiras e entra no carro.

- Então ?...


Dois minutos de carro e lá estávamos. A praia completamente deserta à nossa frente. O cheiro da maresia a invadir-me os pulmões. E um sorriso na cara.


- Porque é que vieste ?

- Não sei. Simplesmente vim. O mâr e tu no mesmo sítio...

- Sei que não vieste só por mim...

- Pois não. Vim por mim também... Porque é que me provocaste tanto ? Sabes que eu reajo ao contrário...

- Eu sei. E foi por isso que o fiz.

- Não querias que eu viesse ?

- Queria saber até que ponto tinhas vontade de vir. Eu sabia que tu vinhas...

- Como é que sabias ? Nem eu sabia que vinha até entrar na estrada!

- Se não viesses, não eras a pessoa que eu julgava que serias. A minha irmã perguntou-me porque é que não estava de pijama. E eu disse-lhe que se calhar ainda ia saír à noite...


"Um lugar encantado"... Que outra música seria mais adequada ao momento ?
Saímos do carro. Tiramos os sapatos que ficaram debaixo dos toldos de praia a imitar as Caraíbas...
Não demorou até estarmos a passear com os pés molhados na água fria. Depois as pernas. As calças encharcadas quase até à cintura. Como se nada fosse. Como se fizesse sentido. Faz sentido...
Conversamos e conversamos e conversamos. Beijamos-nos, abraçamo-nos. A cidade iluminada de amarelo e laranja, do lado de lá, a observar-nos. Com a lua quase cheia como testemunha.

Voltamos. Tiramos as calças encharcadas e penduramo-las nos toldos. A noite não está quente mas também não está fria. Beijamo-nos. A minha respiração cada vêz mais profunda. A tua mais ofegante a cada beijo.
Olhamos à volta. Como é possível que no meio daquela imensidão não esteja mais ninguém a não sêr nós dois ?

Volto ao carro buscar uma toalha. Ela sentada na espreguiçadeira debaixo do toldo.


- Vem até à água.

- Nem penses. Está fria. E eu não te vou deixar ir senão já sei o que vais fazer.

- Vá lá. Vem...

- Não. Eu sou tola mas tu consegues sêr mais.

- Está bem...


Ela volta as costas e eu acabo de me despir num ápice. Também, já só me restava uma coisa para despir... Vou a correr em direcção à água. Ela a dizêr-me para não o fazer enquanto sorri.
Entro na água de cabeça. Está óptima. A sensação de nadar e mergulhar naquela água escura e deliciosamente fria... O coração a bater e uma sensação que não consigo descrever. Uma paz que entra dentro de mim...

Ela sorri enquanto fica preocupada que eu arrefeça. Ajuda-me a secar com a toalha mas eu não tenho frio. Sinto o corpo a fervêr e a brisa da noite parece-me um sopro quente que me aconchega.
O olhar apaixonado e calmo dela enquanto me beija. Os nossos corpos encostados um no outro. O desejo a crescer furiosamente. Deitados na areia, continuo a beijar-te. Puxas-me para ti.

Naquele momento, nada mais existiu. Só nós. Quando te puxei para mim e ficaste sentada em mim dentro de ti, a lua iluminou-te o rosto. Estavas linda...
Naquele momento, nada mais existiu. O mundo eramos nós...

Já sentado na espreguiçadeira, aninhas-te no meu meio. Abraço-te com força e tu abandonas o teu corpo no meu.
Dali a poucas horas, quando o dia já fôr dia, a praia estará cheia de pessoas. Pessoas a apanhar sól, a correr, a berrar, a desejarem estar noutro lado, talvez com alguém que ali não vai estar. Alguém se sentará naquela espreguiçadeira a vêr as horas passarem devagar. Nenhuma vai imaginar o que ali aconteceu. Nenhuma sequer pensou nisso. Fomos só nós dois numa praia imensa que, por um momento, foi o nosso mundo.


- Sabes o que me assuta ?

- Que eu tenha vindo ?

- Que nada disto é pensado. Nada disto é programado. Eu sabia que vinhas e tu vieste...


5 e meia da manhã. Queria poder ficar contigo ali deitado até o dia nascêr. Mas preciso de me compôr. Falta pouco para entrar ao serviço. E tenho que o fazêr com um âr de quem não sonha. A maiôr parte das pessoas tolera mal os sonhadôres...

10 comentários:

Teresinha disse...

:-), que bom que é assim, por vezes amar é isso mesmo, não tenhas medo, tentar não custa e sabe muito bem.

Um bom caminho...

miúdo disse...

Tentar custa, sobretudo quando se tem que vencer medos. As cicatrizes estão lá para nos fazer lembrar que outros tempos houve em que se acreditou...
Mas o certo é que não parei para pensar. E isso é muito bom. Enquanto a vontade de vivêr coisas boas superar o medo de poder apanhar com coisas más, tudo vai bem...

Fica bem ;-)

Teresinha disse...

"Tentar não custa e sabe muito bem" - (Faz o que eu digo e não faças o que eu faço);-); o medo é grande sei bem do que falas. Eu nem tento, simplesmente nego a vêr o que seja.
Gostava de também não parar para pensar e tentar novamente.
O meu caminho é bom, talvez por isso nem tente, e pense sempre antes de agir...

Fica bem ;-)

ru disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JF disse...

Puto!! És doido...
Sabes o que eu penso destas tiragens ao algarve! ehehe
Desde que nao apareçam desculpas de salvar vidas e faltas de baterias esta a vontade!!
lol

Fica bem e orienta-te

miúdo disse...

"O meu caminho é bom, talvez por isso nem tente, e pense sempre antes de agir..."

Teresinha, se o teu caminho é assim tão bom, porque é que o questionas ? Se calhar, apesar de sêr bom, não te chega... Há pessoas assim, que precisam de sentir muito.
Falo por mim, se calhar eu é que sou parvo. Dou o "corpo ao manifesto" e depois lixo-me. Mas é assim que eu sou hoje. Amanhã logo se vê...

Fica bem ;-)

miúdo disse...

Para o jf

Já sabes o que é que eu penso. Eu sou normal, vocês todos é que são doidos. Passam a vida sem vivêr e sem sentir algo assim... Hehe

É aquilo que levas desta vida: o que viveste. O que sentiste.
Pois é chavalo: uns morrem, outros ficam assim. E o mundo é para deles...

Fica bem, murcão... xD

ru disse...

"Já sabes o que é que eu penso. Eu sou normal, vocês todos é que são doidos. Passam a vida sem vivêr e sem sentir algo assim... Hehe

É aquilo que levas desta vida: o que viveste. O que sentiste.
Pois é chavalo: uns morrem, outros ficam assim. E o mundo é para deles...

Fica bem, murcão... xD"

E o burro sou eu??

Nah nada disso, cada um tem um modo de viver e uma altura paa as maluqueiras! E podes ter a certeza que tenho vivido bastante e irei continuar!

Um abraço

miúdo disse...

Vá, deixa-te disso. Já sabes o que é que eu penso sobre isso. Eu não vivo maluqueiras. Eu vivo o sentimento. Ãs maluqeiras podem sêr egoístas e pouco sinceras. E tu sabes muito bem a que me refiro.
Claro que há pessoas que vivem "maluqeiras". O problema é que algumas delas são vividas com outra pessoa que não a pessoa que temos ao lado. E isso, meu caro...

Enfim, tu acima de quase todas as pessoas sabe mesmo que eu penso sobre isso. E que não vivo assim...

Abraço, miúdo ;-)

Manhãs de Inverno disse...

Não voltes a mostrar este espaço a alguém a quem vás deixar entrar na tua vida...
custa, dói ler certas coisas...parece que alguém nos roubou a história.Mesmo a saber o desfecho destas linhas, ainda assim...magoa...
não sei porque partilhaste comigo este canto onde te despes ao mundo...acho que já te tinha perguntado isto, acho que julgas que sou forte...